Bobby Gillespie (Jesus and Mary Chain, Primal Scream) e Jim Reid (Jesus and Mary Chain) no documentário ‘Upside Down - The Creation Records Story’, sobre o selo britânico Creation.
Bobby Gillespie (Jesus and Mary Chain, Primal Scream) e Jim Reid (Jesus and Mary Chain) no documentário ‘Upside Down - The Creation Records Story’, sobre o selo britânico Creation.
Mil vozes por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - Ele tinha mil vozes na cabeça. Locutores de rádio famosos, narradores de futebol, de turfe e de cinejornais, cantores de qualquer nacionalidade, astros de Hollywood e dos cinemas francês e italiano -não havia ninguém que José Vasconcellos não conseguisse imitar. Seu ídolo era o americano Danny Kaye, que fazia aquilo tudo e muito mais. Mas, sem patriotada, José Vasconcellos fazia tudo que Danny Kaye fizesse e mais ainda -e provava isso ao imitá-lo, inclusive na sua especialidade: cantar em altíssima velocidade.
Era capaz de reproduzir qualquer sotaque regional brasileiro, sete ou oito acentos estrangeiros e fazer a voz de pessoas de qualquer idade ou nível social. Era também craque em gagos -seu monólogo do narrador gago de futebol era uma pequena obra-prima.
E não havia som emitido pelo corpo, por mais heterodoxo, que ele não reproduzisse. O mesmo quanto a vozes de animais, ruídos de máquinas e toda espécie de sonoplastia urbana ou rural. Guardava de cor monólogos enormes, em linguagem normal, inventada ou em falas nonsense. Além de poemas, como uma longa seção de “Os Lusíadas”, que ele parodiava em várias línguas.
José Vasconcellos escrevia os próprios textos e era engraçado sem usar palavrões ou grosserias. Ao contrário, abusava de referências sofisticadas. Sua plateia tinha de ficar esperta para acompanhá-lo e, mesmo assim, ele lotava teatros de terça a domingo, no Rio e em SP, nos anos 50 e 60. Foi o primeiro cômico stand-up do Brasil, inspirador direto de Chico Anysio e Jô Soares.
Morreu nesta terça-feira, aos 85 anos. Pelo que li num obituário, nos últimos anos sofria da doença de Alzheimer. É cruel. Como se sentiria vendo fugir todos os esquetes, monólogos, vozes e sons que sua cabeça privilegiada abrigava?
(Folha de São Paulo - 14 de outubro de 2011)
What’s great about this country is that America started the tradition where the richest consumers buy essentially the same things as the poorest. You can be watching TV and see Coca-Cola, and you know that the President drinks Coke, Liz Taylor drinks Coke, and just think, you can drink Coke, too. A Coke is a Coke and no amount of money can get you a better Coke than the one the bum on the corner is drinking. All the Cokes are the same and all the Cokes are good. Liz Taylor knows it, the President knows it, the bum knows it, and you know it.
– Andy Warhol, on the American perception of Coke
(via toolittlecakes)
Esse aí C’était un rendez-vous (em português: Era um encontro), um curta metragem feito em 1976 pelo diretor Claude Lelouch e censurado durante anos pelo governo francês.
Como se pode ver o curta mostra um passeio em alta velocidade por famosas vias de uma Paris recém acordada. O Arco do Triunfo, a Ópera Garnier, a Praça da Concórdia e a Champs-Élysées, todos estão pelo caminho.
As informações disponíveis dizem que a filmagem foi feita às 5:30 da manha. O trajeto é acompanhado apenas dos sons da alta rotação do motor, a troca de marchas e o atrito do pneu com o solo.
Apesar da bela paisagem e da idéia original o que realmente salta aos olhos é a maneira imprudente com que o veículo é conduzido. Pedestres e sinais vermelhos são ignorados, pombos são dispersados, vias de mão-única e de contramão são usadas e faixas centrais são cortadas. Um festival de negligência criminal.
São 8 minutos de rivalidade entre a irresponsabilidade que poderia terminar em tragédia e a arte de uma poética homenagem à cidade e seu romantismo.
Diz a lenda que Lelouch foi preso após a primeira exibição. Outras diziam se tratar de uma moto, enquanto alguns afirmaram se tratar de uma Ferrari conduzida por um piloto de F1.
Alguns fatos foram revelados pelo próprio diretor em uma entrevista de 2006, trinta anos após a realização da filmagem. Nada de moto ou Ferrari, o carro usado foi uma Mercedes-Benz 450SEL 6.9.

Devido a limitada disponibilidade de vídeo tapes, e da cesura que o filme ganhou status de cult e admiração dos fãs das quatro rodas.
Depois de assistir logo pensei em demarcar o caminho percorrido no Google Maps. Não foi preciso abrir o Paintbrush. Algum abnegado já havia feito o trabalho.
Ando numa fase de redescobrir bandas que apesar de ter adorado no passado, passaram anos sem minha atenção. A nostalgia tem endereço certo, começo dos anos 90, e a estética definida, melodia embaladas pelo distorcido feedback de guitarras.
Já tem duas semanas que empaquei no Yo La Tengo. O trio de New Jersey, detentor hereditário dos temas adolescentes dos astros teens do final dos anos 50 e sempre lembrado pela influência do Velvet Underground, é daquelas bandas que não param de gravar. A cada dois anos os caras colocam disco novo nas prateleiras. (‘nas prateleiras’ ??).
Essa enxurrada de discos que a banda tem, já são 12, faz a qualidade média dos álbuns cair um pouco. Mas sempre são encontradas umas 4 ou 5 músicas matadoras, sejam elas as movidas pela distorção arquitetada do guitarrista e vocalista Ira Kaplan, sejam elas nas calmas e delicadas canções.
São nessas calmas que fico travado.
Fui levado a buscar os discos deles que tenho em casa e me lembrei de como as capas deles são belas. Deixo minhas preferidas abaixo.
Painfull (1993)
I Can Hear the Heart Beating as One (1997)
And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (2000)
Tenho imensa dificuldade em começar um texto. Preencher uma página em branco, precisa e gradativamente, com as melhores combinações possíveis de palavras, depoimentos e histórias de vida, é sempre um sofrimento. Que só transforma em prazer à medida que meus dedos parecem ganhar vida própria e começam a encadear ema seqüência coesa de idéias. Não está sendo diferente agora.
Talvez porque eu acredite que, se o papel aceita tudo, como dizem, o leitor não.
Ricardo Franca Cruz – diretor de redação da GQ Brasil
Porque Ferris está entediado
Porque Ferris está disposto a acabar com o tédio.
Porque Ferris não aceita a rotina da classe média.
Porque Ferris quer.
Porque Ferris quer celebrar o hedonismo.
Porque Ferris vai fugir de mais um previsível dia na escola.
Porque Ferris tem pouca paciência com a autoridade. Qualquer autoridade.
Porque Ferris mostra que é possível ser aceito no colégio sem ser rico ou o bonitão.
Porque Ferris quer esse dia ao lado de seu melhor amigo e de sua namorada.
Porque Ferris quer experimentar sua cidade por completo.
Porque Ferris tem a habilidade mágica de se safar mediante qualquer tipo de situação.
Porque Ferris quer apenas celebrar a vida, e o simples fato de estar vivo.
Porque Ferris é uma voz libertária no meio de um marasmo cinzento.
Porque Ferris repaginou o termo Carpe Diem para toda uma geração.
Porque Ferris nos influenciou ao invadir nossas tardes.
Porque Ferris sabe que o tempo passa muito rápido.
Porque Ferris proclama que o tempo livre é sagrado.
Porque Ferris sabe que irá envelhecer.
Porque Ferris mostra para seu melhor amigo Cameron que existe um mundo de oportunidades em sua frente.
Porque Ferris convence seu amigo a ter coragem de se desvencilhar da culpa para seguir suas vontades próprias.
Porque somos todos Cameron, e queremos ser Ferris.
Você sabe que o Paul é nerd quando logo pela manha, enquanto Ringo nem entornou seu chá, o cara já ta concentrado na sequência da bateria.

“Did I listen to pop music because I was miserable, or was I miserable because I listened to pop music?”
É com esse questionamento tostiniano que Rob Gordon, protagonista de Alta Fidelidade (2000), abre o filme baseado no livro homônimo de Nick Horby.
Preocupado com a influência da musica pop na mente de jovens ouvintes, Gordon, interpretado por John Cusack, faz um paralelo entre as canções propagadas pela indústria fonográfica e filmes de conteúdo violento lançados por Hollywood.
Em sua teoria Gordon não entende por que pais e autoridades se preocupam tanto com a possível influência desses filmes, de maneira que uma conduta violenta possa tomar conta das novas gerações, enquanto nos fones de ouvido de seus filhos são ouvidas inúmeras faixas sobre corações partidos, rejeição, sofrimento, dor e perda.
Gordon sabe do que fala. Sabe que a cultura jovem nasceu com o rock and roll. E que o rock vem se sustentando, desde seus primeiros acordes na década de 50, em cima da devastação da alma causada por desilusões amorosas.
Desde Elvis até Radiohead, a música pop segue como sendo a trilha sonora do garoto encontra garota, garoto perde garota. (sem machismo aqui, as girl groups do começo dos anos 60 trouxeram o desespero feminino ao foco das canções)
Mas de todos os males que uma letra de música pode trazer aos seus ouvintes, exatamente o que deixa Rob Gordon preocupado, nenhuma para mim é tão mordaz quanto uma faixa lançada em 1999 pelo grupo norte americano Magnetic Fields.
Reduto criativo do cantor e compositor Stephin Merritt, o Magnetic Fields lançou em 1999 um álbum conceito chamado “69 Love Songs”, onde, como diz o título, são encontradas 69 canções de amor espalhadas em três CDs. Entre elas a famigerada “I Don’t Want To Get Over You”.
Na música o interlocutor se nega a superar a perda de um amor ao declarar que: não pretende encontrar ninguém daqui pra frente; irá desobedecer seus amigos e não sairá de noite; desdenha os efeitos benéficos do Prozac; não dará ouvidos ao seu terapeuta e irá se negar a fazer de conta que ela não existe; e que a partir de agora viverá para sempre sendo uma pessoa atormentada pela onipresente tristeza.
Com Magnetic Fields ao alcance de um download, não há película do Jet Li que causará mais estragos em seus filhos. Rob Gordon que o diga.
(music via thismustbetheplace-)